Endereço lorem ipsum 

  • Facebook Clean

PAISAGEM ENCANTADA

Marcus de Lontra Costa


   Há, entre a paisagem carioca e a personalidade de Isabela Francisco, uma perfeita simbiose. O Rio recusa a linha reta, a forma aberta e definida e a amplidão espacial. Seus morros projetam-se sobre o mar e a cidade se espalha – e se espraia - por essas frestas, por essa infindável sucessão de dobras e recortes. A pintura para Isabela Francisco é instrumento de beleza e sedução. Ela se projeta sobre o suporte, seja lindo ou alumínio, com a ferocidade daqueles que fazem da paisagem a sua razão de ser, o seu corpo, suas vísceras, seu desejo.

 

  Essa é a permanente presença do barroco tão bem compreendido e vivenciado pela artista. Tudo aqui conspira, inspira, aspira ao espetáculo. Toda a pintura da artista é palco de formas e cores contrastantes, composição aberta aos olhares inquietos. Como registra Alfredo Bosi, “ *O clássico articula cada parte do conjunto, analisando e perfazendo as suas linhas, que são os seus limites: cada figura recebe um tratamento
plástico acabado. O barroco vai direto ao coração do efeito pictórico, dando a esta ou àquela figura todo o peso simbólico (ou, frequentemente, alegórico), que é a chave da obra merecendo portanto maior tratamento expressivo ou ornamental*.”

 

   Para Isabela Francisco, conceito e emoção dialogam e se integram através da práxis. Para ela a arte é um permanente exercício de experimentação, e para que ocorra a necessária transcendência do real – essência da arte – é fundamental um profundo conhecimento dos meios técnicos que permitem à artista construir imagens de forte impacto e contundência visual. Por isso, o conhecimento técnico, o amplo domínio das tintas e pincéis, não se torna jamais um impedimento. Ao contrário, a necessária ação artesanal pictórica
contribui efetivamente para o surgimento de um universo de cores, formas e volumes que, integrados transcendem a realidade objetiva e encontram eco e abrigo no universo da arte.

Sobre ícones da paisagem carioca, a artista acrescenta uma alegoria arrojada composta por círculos e retângulos articulados como um colar de estrelas coloridas e vibrantes. A artista percorre tempos e espaços variados, visita o barroco e a arte pop, caminha pela alegoria e pelo construtivismo, elaborando uma musicalidade de notas dissonantes que, graças a seu talento, acabam por criar uma obra íntegra e curiosa que permite ao espectador inquieto descobrir belas relações entre a forma e a cor. Nesse sentido, dentro de um certo espírito matissiano, Isabela não teme o kitsch nem o popular. A sua pintura, sofisticada na sua composição formal, incorpora o tropicalismo, a aura carnavalesca e sedutora que simboliza e sintetiza o Rio de Janeiro.

 

   Se nas telas tradicionais a artista parece entender – dentro do sentimento  barroco – o espaço branco e vazio como um inimigo a ser vencido e superado com o auxílio da matéria pictórica volumosa e, na maioria dos casos, de cromatismo vibrante, a estratégia se diferencia quando Isabela atua com suportes metálicos. A superfície prateada e impessoal do suporte é inteligentemente apropriada pela artista, que usa a cor como elemento contrastante ao mesmo tempo em que interfere com incisões que a aproximam de determinados procedimentos técnicos relacionados com a gravura em metal. Tais ações revelam uma artista sensível e corajosa com domínio de seus meios técnicos e que a partir deles consegue criar um repertório diversificado e pessoal. O estilo Isabela Francisco não surge como uma imposição; ele é o resultado de um processo determinado pela pesquisa e pelo compromisso com a experimentação.

 

   Num determinado momento do século passado as estratégias da vanguarda  pareciam condenar o artista a uma eterna e injusta luta contra o tempo. Passado o tempo das Utopias, o artista contemporâneo encontra-se liberto para retomar os rumos de sua própria história. Isabela Francisco atua nessa nova realidade: as suas pinturas são objetos belos e sedutores que procuram encantar os olhares cansados do Ser contemporâneo. Aqui, o que se evidencia é a ação humana, a construção de uma realidade encantada, construída com tintas e pincéis, mas também, e principalmente, com o talento e a coragem de uma artista que acredita na força transformadora da arte e cumpre, com seriedade e modéstia, o seu papel de agente transformador do mundo e da nossa realidade.

 

 

Marcus De Lontra Costa Curador independente e crítico de arte

Textos críticos